
É motorista de uma kombi escolar e muito amado pelas crianças, o que já o credencia como uma boa pessoa.
Dono de uma memória privilegiada e chegado em estatísticas, sempre me surpreende com suas colocações.
Não confessa seu time nem sob tortura, embora todos saibam que é botafoguense.
-Isso só atrapalha.- afirma.
-Atrapalha por quê?- perguntei um dia.
-Cria relação, seu Zé, e ninguém esquece.
-Ah!- respondi, embora não entendesse bem.
Com o tempo entendi que tal opção estava relacionada a seus sonhos de juventude, tornar-se jogador profissional. Sonho no momento transferido para seu neto, que conforme ele, jogava bem e pretendia, contra sua vontade ir para o Matsubara.
-Matsubara! Que clube é esse?–perguntei sem fazer questão de esconder minha ignorância.
-Sociedade Esportiva Matsubara, no Paraná.
Intimamente, não pude deixar de concordar com seu Canjinho. Que futuro poderia ter um jovem em um clube tão pouco conhecido, me perguntei.
Seu Canjinho percebendo minhas mudas indagações, me explicou que os jovens hoje, pensam apenas no caminho mais fácil para sair do país.
-São como passarinhos- diz ele- em determinado período do ano migram em busca de calor e de alimento.
Sem me dar tempo de assimilar a analogia, emenda:
-Você sabia que no ano passado 1.176 jogadores saíram do país? E que este ano já foram 531 até a última publicação da CBF?
Não pude deixar de demonstrar espanto com os números, afinal esse era um ano de crise. Pelo menos, é o que diziam os entendidos no assunto.
Seu Canjinho, ignorando meu crescente espanto, seguiu despejando dados.
-Só para Portugal foram cinqüenta e dois atletas... Para o Japão trinta e tres, Alemanha trinta e quatro e para os Estados Unidos, vinte e um.
Embora cada vez mais surpreso com os números relatados, não podia deixar de pensar onde o Matsubara entrava na história.
Seu Canjinho então me perguntou:
-Você sabe quantos jogadores o Sãoo Paulo exportou este ano? E o Flamengo? Fluminense? Palmeiras?
Cada vez mais confuso, eu balançava a cabeça negativamente.
E ele, como se estivesse lendo uma planilha, foi falando:
-São Paulo dois, Flamengo cinco, Fluminense um, Palmeiras, três e Internacional seis. E o Matsubara? Sabe quantos jogadores o Matsubara vendeu esse ano?
E eu, que não conseguia parar de balançar negativamente a cabeça, apenas esbugalhei os olhos, mais ou menos prevendo o absurdo da resposta...
- Quinze! Quin-ze.- e complementou:
- Quinze este ano e oito no ano passado.
Bem, agora a opção do garoto começava a fazer sentido para mim, e fui obrigado a perguntar ao seu Canjinho, o motivo de sua insatisfação.
Ele então me explicou que estes números não significavam nada. Que havia muita diferença entre ser exportado por um clube de ponta ou por um clube não tão conhecido assim.
Para ele, deveria haver uma legislação mais voltada à proteção de jovens atletas.
Poucos são levados para uma vida realmente melhor. Os mais conhecidos, diz ele, têm seus contratos bem analisados, são orientados, ficam em contato com a mídia, vão muito mais protegidos. E ainda assim, conclui ele, muitos enfrentam sérios problemas quando querem voltar.
Mas, penso eu enquanto escuto, se o sonho é ir, voltar por quê?
Mais uma vez, como que lendo meus pensamento, seu Canjinho complementou:
- Seu Zé, já falei do número de jogadores que saem anualmente, mas o senhor sabe quantos voltam?- claro que eu não sabia.
Mas antes mesmo que eu respondesse, ele disse:
- Ano passado saíram 1176 jogadores e retornaram 659. Este ano, embora até o momento tenham saído 531, já retornaram 473.
Dito isso, olhou para seu relógio e viu que estava na hora de pegar as crianças.
E enquanto se despedia, percebendo meu olhar atônito, complementou:
- É seu Zé...Nem todo sol aquece. Nem toda comida é alpiste.
................................Parabéns a Família Marques pela chegada do bebê!